Facelift Uma cirurgia mais complexa é necessariamente melhor?

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## Uma cirurgia mais complexa é necessariamente melhor?

**Por Ronaldo Webster, MD, MSc, PhD**

Na medicina, existe uma tendência compreensível de associar evolução a maior complexidade.

Novas técnicas surgem, operações tornam-se mais sofisticadas e passamos a acessar estruturas que antes eram pouco abordadas.

Na cirurgia facial isso aconteceu de maneira extraordinária.

Hoje podemos trabalhar em diferentes planos, liberar ligamentos, reposicionar o SMAS e, quando necessário, abordar estruturas profundas do pescoço.

Tudo isso representa avanço.

Mas existe uma pergunta que considero essencial:

**uma cirurgia tecnicamente mais complexa produz necessariamente um resultado melhor?**

A resposta depende menos do nome da técnica e muito mais da anatomia do paciente.

## Complexidade e qualidade não são sinônimos

Uma operação pode ser extremamente sofisticada e ainda assim ser inadequada para determinado paciente.

Da mesma forma, uma técnica menos extensa pode produzir um excelente resultado quando utilizada na indicação correta.

Por isso, não acredito que possamos organizar as técnicas de facelift simplesmente em uma escala que vá da “mais simples” à “melhor”.

São estratégias diferentes para anatomias diferentes.

**A qualidade de uma cirurgia não deveria ser medida pelo número de estruturas abordadas, mas pela precisão com que tratamos aquelas que realmente necessitam de correção.**

## O fascínio pelo “mais”

Existe algo intuitivamente atraente na ideia de que uma operação maior produzirá um resultado maior.

Mais profundo.

Mais completo.

Mais duradouro.

Mas a biologia não funciona necessariamente dessa maneira.

Toda intervenção produz benefícios potenciais, mas também acrescenta trauma cirúrgico e exposição a riscos.

A pergunta correta, portanto, não deveria ser:

**“Quanto conseguimos fazer?”**

Mas:

**“Quanto precisamos fazer para atingir nosso objetivo?”**

## Cada plano acrescentado precisa ter uma razão

Imagine uma cirurgia facial como uma sequência de decisões.

Precisamos tratar somente a pele?

Precisamos trabalhar o SMAS?

É necessário liberar determinados ligamentos?

Existe indicação para uma dissecção em Deep Plane?

O pescoço possui um componente profundo?

Precisamos abordar gordura subplatismal?

Os músculos profundos participam realmente do problema?

Existe uma razão objetiva para considerar uma intervenção glandular?

Cada resposta pode ampliar a operação.

Mas cada ampliação deveria ocorrer porque encontramos **uma alteração anatômica que justifique aquela etapa**.

## O risco também acompanha a extensão da cirurgia

Toda cirurgia possui riscos.

À medida que aumentamos a área e a profundidade da dissecção, passamos a trabalhar próximo de estruturas anatômicas cada vez mais importantes.

Nervos, vasos, músculos e glândulas fazem parte desse território.

Isso não significa que procedimentos profundos não devam ser realizados.

Quando indicados, podem oferecer benefícios importantes.

Significa que o benefício esperado deve justificar a intervenção adicional.

**Complexidade deve ser consequência da necessidade — nunca um objetivo por si só.**

## Existe também o problema oposto

Defender proporcionalidade não significa defender cirurgias pequenas.

Esse seria outro erro.

Quando o envelhecimento é avançado ou envolve estruturas profundas, tentar resolver tudo com uma intervenção limitada pode produzir um resultado insuficiente.

Uma operação menor não é automaticamente mais elegante, mais natural ou mais segura.

Ela precisa ser **suficiente**.

É por isso que técnicas limitadas, como o U-Lift, e técnicas mais extensas, como determinados Deep Plane Facelifts, não precisam competir entre si.

Elas podem simplesmente atender pacientes diferentes.

## Naturalidade depende mais da indicação do que do tamanho da cirurgia

Um resultado natural não significa necessariamente que pouca coisa foi feita.

Em determinados pacientes, precisamos realizar uma operação extensa justamente para restaurar adequadamente a anatomia.

Em outros, uma intervenção excessiva pode modificar estruturas que não necessitavam ser alteradas.

Naturalidade está relacionada à capacidade de reconhecer aquilo que envelheceu e reposicioná-lo respeitando identidade, proporções e expressão.

Por isso, **naturalidade não é sinônimo de cirurgia pequena.**

É sinônimo de cirurgia proporcional.

## O papel da experiência

No início da formação cirúrgica, grande parte da nossa energia está concentrada em aprender **como fazer**.

Como dissecar.

Como suturar.

Como suspender.

Como acessar determinado plano.

Com o passar do tempo, uma segunda pergunta ganha importância:

**quando fazer?**

E talvez exista ainda uma terceira:

**quando não fazer?**

Dominar uma técnica amplia nossas possibilidades.

Mas saber quando utilizá-la — e quando não utilizá-la — faz parte da maturidade cirúrgica.

## A influência das redes sociais

As redes sociais mudaram profundamente a maneira como pacientes conhecem procedimentos médicos.

Hoje, muitas pessoas chegam à consulta solicitando uma técnica específica.

Isso demonstra interesse e acesso à informação.

Mas também pode criar uma inversão perigosa.

O paciente aprende primeiro o nome da operação e depois tenta encaixar sua anatomia dentro dela.

Na medicina, precisamos fazer o caminho contrário.

**Primeiro entendemos o problema. Depois escolhemos a solução.**

## Minha maneira de pensar o facelift

Eu prefiro imaginar o facelift como um conjunto de ferramentas.

Podemos utilizar técnicas mais limitadas.

Podemos trabalhar o SMAS.

Podemos entrar em planos profundos.

Podemos associar diferentes tratamentos do pescoço.

Nenhuma dessas possibilidades precisa ser utilizada simplesmente porque está disponível.

Escolhemos progressivamente aquilo que a anatomia exige.

Isso permite individualizar a operação e evitar dois extremos igualmente indesejáveis:

**fazer menos do que o necessário**

ou

**fazer mais do que o necessário.**

## Sofisticação também pode significar contenção

Existe uma ideia que considero particularmente importante.

Às vezes, o avanço técnico permite fazer mais.

Mas a experiência pode nos ensinar a fazer **somente aquilo que é necessário**.

Isso não representa uma cirurgia menos moderna.

Pode representar justamente o contrário.

Porque a verdadeira sofisticação talvez não esteja em demonstrar quantas estruturas conseguimos modificar.

Está em reconhecer precisamente **quais delas precisam ser modificadas naquele paciente.**

Por isso, continuo utilizando um princípio simples:

**diagnosticar primeiro, escolher a técnica depois e preservar sempre que possível.**

A melhor cirurgia não é necessariamente a maior, a menor ou a mais profunda.

É aquela cuja extensão corresponde à necessidade anatômica do paciente.

**Nem menos. Nem mais.**

**Ronaldo Webster, MD, MSc, PhD**
Cirurgião Plástico
Porto Alegre — RS